Todos nós conhecemos alguém que já caiu em algum golpe na Internet, o que representa uma parcela significativa dos usuários da rede. Mas por que isso acontece? Considerando apenas o Brasil, é importante entender que o crime de estelionato, exceto quando aplicado a pessoas influentes na sociedade, em sua maioria não são sequer investigados e nos casos de condenação as punições são brandas.
A própria Internet, criada para permitir o livre tráfego de dados, não implementou em seu protocolo nenhum mecanismo robusto de autenticação que correlacione diretamente os dados transmitidos com a pessoa que os gera. Além disso, o tratamento dado pelas Mídias Sociais aos golpes originados de perfis em suas plataformas é, muitas vezes, insatisfatório. Perfis que vendem pacotes de viagem falsos ou produtos inexistentes frequentemente recebem respostas como “seu conteúdo não infringe os termos de uso”. Esses perfis muitas vezes utilizam recursos de impulsionamento de publicações, prejudicando os usuários finais que não recebem os produtos ou perdem dinheiro em armadilhas virtuais.
Nos casos em que o perfil é suspenso ou bloqueado, mesmo que temporariamente, em questão de segundos, outro perfil, que aparentava tratar de outro assunto e estava sob o domínio dos golpistas, é alterado para continuar o golpe. O resultado é que o mesmo golpe permanece ativo na plataforma por anos, e as pessoas continuam caindo nele. As páginas criadas pelos golpistas estão cada vez mais bem elaboradas, e os próprios golpes são cada vez mais sofisticados. Com o uso da inteligência artificial, até os erros de português que antes denunciavam esses sites não ocorrem mais. Alguns desses sites são clones idênticos aos originais.
Resta ao usuário apenas se defender, tentando adivinhar se um domínio, site ou perfil de mídia social pertence a um fornecedor legítimo ou não.
Como resolver esta questão?
Deixando as leis para os juristas de plantão, vamos nos ater apenas a questões tecnológicas. De fato, o que precisa ser feito é criar uma relação de confiança/responsabilidade entre quem gera o dado, quem divulga o dado e quem recebe o dado. Um processo de autenticação, uma cadeia de responsabilidades, mecanismos de avaliação, denúncia e exclusão de contas, além da identificação física dos responsáveis e uma integração rápida com as forças policiais, iriam mitigar absurdamente esse tipo de ocorrência.
Toda vez que esse assunto entra em pauta, existe uma resistência enorme das plataformas em identificar univocamente esse tipo de perfil a uma pessoa física ou bloquear processos de impulsionamento. Talvez isso ocorra por causa da perda de lucratividade, do aumento de custos ou da restrição na geração de receita. Na corona da argumentação se apelam para as questões de privacidade, mas acredito que a maioria das pessoas gostaria muito de ter certeza que está tratando comercialmente com alguém que está devidamente identificado.
Alguns ambientes de e-commerce já aprenderam isso e têm um melhor registro de seus fornecedores, com cadastros, regras e reputações. Isso prova que é possível sim melhorar significativamente a confiança no ambiente de negócios.
Para a Internet como um todo, a situação é mais complexa, pois exigiria identificação para navegar na rede, o que levanta também a mesma argumentação do comprometimento da privacidade. A Microsoft já tentou criar uma rede paralela à Internet com autenticação, mas a ideia não vingou.
Atualmente, estamos presenciando um movimento de digitalização das identidades em todo Brasil e a virtualização de nossa moeda (PIX+DREX). Esses dois fatores facilitam a autenticação e a rastreabilidade na Internet, mas ainda devem demorar um pouco para serem implementados mundialmente (essa iniciativa está ocorrendo nas maiores economias do mundo).
Estamos em um momento em que de 30% a 50% do tráfego da Internet é automatizado por robôs. Além disso, aplicar golpes na rede tornou-se lucrativo. Se esses dois fatores não forem tratados adequadamente, a Internet pode se tornar um ambiente estéril, se reduzindo a meia dúzia de ambientes mais seguros.
Observe a decadência dos serviços de SMS, prospecção via telefone e até mesmo prospecção via e-mail. São tantas mensagens e golpes com links falsos que a confiança nesses serviços já desapareceu há muito tempo. Você clicaria em um link recebido no SMS ou por e-mail de alguém estranho?
É importante começarmos a construir um ambiente de negócios mais saudável na Internet, que inspire confiança nas relações pessoais, mas que também preserve a privacidade e a flexibilidade da rede. Isso não será possível apenas com iniciativas empresariais; precisamos expandir essa discussão para incluir regulações governamentais e os anseios da sociedade civil organizada.
Alguns números para pensarmos…
O mercado de golpes e estelionato na Internet no Brasil tem apresentado um crescimento alarmante nos últimos anos. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, os números são impressionantes:
Trazendo um pouco para aspectos do dia a dia, podemos enumerar os 9 principais grupos de fraudes mais conhecidos. São eles:
Para se proteger, desconfie de mensagens suspeitas e verifique a autenticidade do contato antes de compartilhar qualquer informação ou quantia em dinheiro. Além disso, nunca retorne ligações para o número que o atacante forneceu; busque o número em outra base de dados, como os contatos do seu celular.
Dicas para evitar problemas:
Muito cuidado e atenção. Boas compras!
—
Rodrigo Jonas Fragola
Profissional destacado na área de segurança da informação, com uma trajetória de mais de 26 anos. Reconhecido como pioneiro em soluções tecnológicas inovadoras, Fragola contribuiu significativamente para o desenvolvimento do primeiro firewall nacional. Graduado em Ciência da Computação pela Universidade de Brasília, ele se especializou em Segurança de Rede e Inteligência Artificial, integrando habilidades técnicas a
uma visão estratégica profunda.
Como palestrante em eventos de prestígio, tais como Gartner Security, Security Leaders e Mind The Sec, Fragola
compartilha seu conhecimento extensivo, impactando o setor nacional e internacional. Seu trabalho inovador e dedicação ao campo lhe valeram reconhecimentos importantes, incluindo a “Medalha do Mérito Buriti” do Governo do Distrito Federal e o prêmio “A Nata dos Profissionais de Segurança da Informação”.
Atualmente, Fragola lidera como CEO da Ogasec Cyber Security, é presidente da Assespro-DF e Diretor-Adjunto de Cibersecurity e Defesa da Federação Assespro. Além disso, desempenha papéis chave como conselheiro da ABES, membro da Câmara Nacional de Cibersegurança (CNCiber) do GSI/PR, membro da Câmara de Segurança e Direitos do CGI.BR e Coordenação do GT1 da Ransomware Task Force – RTF Brasil/MRE/OAS/IST.
Para mais informações:
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2884780719728393
Visite Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rodrigofragola/
Empresa: https://www.ogasec.com
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